A Lei Rouanet e o “Survivorship Bias”

Recentemente assisti uma entrevista com o Jô Soares, na qual ele falava sobre o “absurdo” que as pessoas têm falado sobre a Lei Rouanet. Ele falou que é tudo uma “ignorância, uma mentira, um total desconhecimento”. E certamente essa é a opinião unânime entre os “artistas intelectuais” agraciados com o “fomento à cultura”.

Mostrarei aqui que, enquanto muitos acham que esses artistas são apenas picaretas aproveitadores, a situação atual pela qual estamos vivendo pode ser explicada pelo “Survivorship Bias” e isso está quebrando o país.

O Survivorship Bias pode gerar falhas irreparáveis, e ajuda a explicar como a Lei Rouanet está destruindo o Brasil.

Antes de mais nada, citemos alguns fatos:

 

FALSO: O governo dá dinheiro diretamente para os artistas.

VERDADE: Os artistas recebem a permissão de poder captar o dinheiro junto a empresas credenciadas. Esse dinheiro é abatido do imposto de renda, que iria para o governo federal. Portanto a lei só elimina o agente intermediário (governo).

FALSO: Os artistas não recebem dinheiro, quem recebem são os produtores.

VERDADE: De fato os produtores recebem o dinheiro, porém obviamente contratam os artistas, pagando salários que eles quiserem. Um exemplo disso é o próprio Jô Soares, que alega nunca ter recebido diretamente dinheiro do governo, porém, como mostrado na foto acima, ele recebeu uma grana gorda para dirigir uma peça, a qual foi autorizada a captar mais de R$ 2 milhões. O diretor recebeu aproximadamente R$ 700 diários, num país em que o salário mínimo é de R$ 25 por dia.

FALSO: O governo compra o apoio de artistas com recursos da Lei Rouanet.

VERDADE: Survivorship Bias.

 

Survivorship Bias? O “viés de sobrevivência” é o erro de lógica de concentrar-se nas pessoas que sobreviveram algum processo e, inadvertidamente, ignorar aqueles que não o fizeram, por causa de uma falta de visibilidade. Isto pode levar a falsas conclusões de várias maneiras diferentes. Um exemplo clássico é o da Inglaterra, país no qual esse viés quase custou a Segunda Guerra Mundial (Vale a pena ler o caso AQUI).

O viés de sobrevivência pode levar a crenças excessivamente otimistas porque as falhas são ignoradas. Ele também pode levar à falsa crença de que o sucesso de um grupo tem alguma propriedade especial, em vez de apenas coincidência ou uma simples falha seletiva.

E é exatamente isso que tem ocorrido no Brasil. Num país onde a cultura é extremamente desincentivada e mal remunerada, artistas que recebem um pouco mais de recursos acabam se destacando. E de onde vêm esses recursos? Do dinheiro público, óbvio. E quais são os artistas que tendem a recorrer ao dinheiro público?

Em geral, aqueles de esquerda, que acreditam num Estado Todo Poderoso (não veem problemas ideológicos nisso) e que acham que eles próprios são a Cultura. E se o artista não quiser ou não conseguir utilizar os recursos da Lei? Como as empresas têm incentivo a abater do imposto de renda esses recursos, dificilmente elas irão querer patrocinar outros artistas por fora, portanto os que não recebem esses recursos, dificilmente “sobrevivem”.

O resultado disso: anualmente o governo deixa de arrecadar BILHÕES de reais em impostos a fim de fomentar a chamada “cultura” (DUVIDA?). E o que é cultura? Quem define o que é cultura? Ora, o até ontem existente Ministério da Cultura. ninguém mais!

Portanto, discordo (parcialmente) de quem acha que esses indivíduos são, em maioria, pessoas mal-intencionadas ou pilantras. Não, simplesmente acredito que eles acabam tendo maior expressividade na sociedade, pois eles têm mais recursos para tal.

Quem não tem recursos, simplesmente não consegue “sobreviver” e aparecer. E, indiretamente, o cidadão – que em outra ocasião, nunca usaria o dinheiro do seu bolso para comprar a biografia da Cláudia Leitte – acaba indiretamente patrocinando-os e acaba sendo convencido de que isso é uma boa ideia, já que ele nunca ouvirá um “artista intelectual” dizer o contrário!

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