O que você não sabe sobre a Uber – Algum dia a empresa terá lucro?

Quando eu conheci a Uber, na Europa em 2013, a primeira coisa que me veio à mente foi: “isso nunca vai dar certo no Brasil, quem vai querer pegar carona pelo celular com um desconhecido”? Mal eu sabia que estava completamente equivocado.

Hoje, quatro anos depois, a Uber já opera em mais de 25 cidades brasileiras, com 4 milhões de usuários ativos e 50 mil motoristas. É um sucesso indiscutível.

É claro que naquela época era tudo diferente. Smartphones ainda eram relativamente uma novidade e o 3g bastante limitado no país. Então meu equívoco foi até justificado.

Entretanto, mesmo com a forte expansão da startup americana, algumas questões nunca saíram da minha cabeça: qual é o motor que roda essa empresa? Como os custos são, aparentemente, menores do que os dos competidores? E, sobretudo, como consegue sobreviver com resultados negativos consistentemente?

Esse é o 5º de uma série de estudos de caso que estou realizando e, certamente, o mais analítico. Enquanto a maioria da mídia foca em atributos da Uber e seu estilo empresarial, este artigo focará nos aspectos econômicos e na sua dinâmica corporativa.

Além deste, você também pode ler os da Netflix, Airbnb, Amazon e Ebay. Tem alguma sugestão para uma próxima empresa a ser analisada? Diga nos comentários!

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A história da Uber

A Uber é uma rede de transportes virtual que conecta passageiros interessados em serviço de transporte com motoristas independentes que estão na sua proximidade.

Funciona como um serviço de taxi, porém apresenta diferenças, como o fato de o passageiro poder pedir e pagar o motorista diretamente pelo smartphone e do preço variar em função da oferta de motoristas disponíveis.

Fundada em 2009, como UberCab, a empresa recebeu US$200 mil em capital semente no mesmo ano. Mas a primeira corrida só veio 1 ano depois, em meados de 2010. O serviço definitivo e o aplicativo Uber foram oficialmente lançados em 2011 e, já no final do mesmo ano, ela já conquistou US$44,5 milhões em investimentos.

A expansão internacional começou em 2012 chegando na Europa e, posteriormente Ásia, África e América do Sul. Em 2014, a empresa começou a oferecer outros serviços de logística como entrega de correspondências e alimentos. Nesse mesmo ano ela foi avaliada em US$18 bilhões. Em 2015, anunciaram que iriam investir fortemente em carros que dirigem sozinhos, o que está sendo a grande empreitada da Uber atualmente. Até o final de 2016 já havia 40 milhões de usuários ativos no mundo inteiro.

No Brasil, a primeira cidade a receber o aplicativo foi o Rio de Janeiro, em maio de 2014, seguida por São Paulo um mês após. A estratégia foi elaborada visando o enorme mercado gerado com a Copa do Mundo. E deu certo.

O principal marketing da empresa, no início, foi a divulgação boca a boca. Turistas estrangeiros, que já estavam familiarizados com o aplicativo, começaram a usá-lo e, dessa forma, residentes locais também começaram a descobrir esse novo serviço.

Há, ainda, um incentivo para a indicação do aplicativo para amigos (o que dura até hoje). Ao fazer uma indicação para outra pessoa, ambos usuários ganhavam um desconto nas próximas corridas. Essa iniciativa foi a principal responsável para a popularização do serviço no país.

Por oferecer um serviço semelhante aos táxis, mas operando com um custo normalmente menor para o passageiro, a Uber despertou preocupação e críticas da indústria de táxis ao redor do mundo.

No caso do Brasil, o trabalho de taxista é regulamentado pelo governo e o número de licenças é limitado e com uma alta demanda. Por conta disso, existe um mercado informal de aluguel de licenças que movimenta muito dinheiro.

Brigas judiciais e, também, contra governantes passaram a se tornar frequentes para a Uber e são, atualmente, o grande desafio para a empresa. Entretanto, algumas cidades já decidiram legalizá-la e, com isso, passar a cobrar impostos.

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Já conferiu a lista dos mais vendidos de 2016 em Administração e Negócios?

 

A Uber Experience

Certamente os que já utilizaram o aplicativo saíram com a nítida impressão de que a qualidade do serviço prestado é superior à média praticada por taxistas. Isso não é por acaso. O diferencial da empresa sempre foi transformar as corridas em uma experiência para o usuário.

Existem regras tanto para os veículos utilizados quanto os motoristas. No Brasil, para se tornar um uberX (categoria inferior), o carro deve ser modelo 2008 ou superior e possuir ar condicionado. Já o uberBLACK (categoria de luxo) requer automóveis na cor preta sedan ou SUV, com banco de couro. Os motoristas devem possuir seguro do automóvel que também cubra o passageiro, e usam um traje de trabalho obrigatório.

Adicionalmente, o aplicativo é bastante interativo (user friendly) e possui uma interface com uma estética visual de alta qualidade.

Além do conforto e hospitalidade, a experiência do passageiro também conta com a oferta de snacks, água, jornal do dia, ar condicionado e a possibilidade de escolher a música tocada no veículo.

Uma pesquisa realizada no Rio de Janeiro, com mais de 100 entrevistados acima de 18 anos revelou que, de maneira geral, usuários avaliam a Uber como sendo melhor que o taxi em diversos quesitos, conforme mostrado abaixo.

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O foco na qualidade do serviço prestado foi um ponto decisivo para que a empresa se popularizasse entre os usuários. Portanto, foi uma estratégia determinante para a rápida expansão não só no Brasil, como em diversos outros países.

Somado a isso, o serviço pratica um preço frequentemente abaixo dos concorrentes. Todavia, atualmente, após mudanças no algoritmo e implementação de novos custos ao passageiro, houve um aumento significativo dos preços.

No Brasil, a qualidade e as exigências feitas aos motoristas também reduziram em comparação às iniciais. Esse fator, no entanto, é justificado para que a empresa mantenha os preços baixos.

A Uber experience é uma grande lição para empreendedores que procuram desenvolver serviços disruptivos. Hoje há um grande número de pessoas que priorizam a qualidade na hora de contratar serviços, porém, muitas vezes, não encontram uma oferta que supra essa demanda.

Muitas startups que conseguem explorar essa preferência têm apresentado um crescimento acima da média. Para elas, qualidade não é uma ação, mas um hábito.

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Você ainda fica em hotel quando viaja?

 

Seria a Uber uma pirâmide?

Nos últimos anos, conquistando o carinho do público e travando batalhas judiciais, a empresa criou uma imagem de invencibilidade. Mas o quanto disso é real?

A Uber hoje é a empresa privada com maior valor de mercado do mundo. O valuation realizado por investidores do Vale do Silício foi de aproximadamente US$69 bilhões. Uma surpresa para uma indústria tradicionalmente fragmentada e caracterizada por margens baixas.

Além disso, diferentemente da maioria das startups, ela não foi criada procurando um nicho de mercado no qual pudesse crescer. A ideia inicial sempre foi a dominância mundial da indústria, através de uma competição acirrada com os rivais já estabelecidos.

Apesar do alto valor de mercado, a Uber apresenta um grave problema: ela tem operado com perdas na ordem de US$2 bilhões ao ano.

Como não é uma empresa de capital aberto, não existem muitos dados sobre suas finanças. Mas, com o que é divulgado, é possível ver que está perdendo mais dinheiro do que qualquer outra startup na história.

Então como conseguem operar? Simples: investidores injetam uma grande quantidade de capital na empresa anualmente, o que subsidia os custos.

Alguns analistas afirmam que esse é um caminho normal para startups desse porte que apresentam crescimento rápido. Esperam que as grandes perdas iniciais se transformem em um proeminente lucro em alguns anos, quando a empresa estiver estabilizada.

Entretanto, o rápido crescimento da empresa não gerou evolução na margem da empresa entre 2012 e 2016. Os resultados financeiros de 2015 não apresentaram nenhuma melhoria significativa no lucro marginal. Já em 2016 houve uma evolução limitada, mas que pode ser explicada pelo corte das compensações dos motoristas.

Além disso, comparando-se com outras grandes startups como eBay, Google e Facebook, nota-se que essas possuem uma grande economia de escala, já que podem expandir com um custo marginal extremamente baixo. O mesmo não ocorre com o restante da indústria de serviço de carros urbanos.

Até o fim de 2015, os passageiros estavam pagando apenas 41% do total do custo real das viagens. O restante do custo era subsidiado pela própria Uber. Essa é uma das principais razões que justificavam os baixos valores praticados em comparação com taxis convencionais. Esse preço baixo, como se nota, é artificial e não consegue ser sustentável a longo prazo.

Análises mais aprofundadas das finanças da empresa não são possíveis, uma vez que, como é uma empresa privada, não é obrigada a divulgar seus resultados, além de não precisar passar por uma auditoria. Os únicos dados disponíveis são demonstrativos apresentados aos investidores e que foram publicados em veículos de mídia em diferentes ocasiões.

Há quem diga que a recusa da Uber em considerar o IPO (oferta de ações na bolsa) pode ser explicada pelo medo em ter que divulgar os resultados financeiros detalhados e auditados com as enormes perdas e progresso limitado.

Estaria a empresa inflando seu valor de mercado a partir da aquisição de novos clientes com a promessa de lucro no futuro para os investidores? O tempo dirá.

Você já é usuário da Uber? Então diga nos comentários abaixo o que acha do serviço prestado! Não é usuário ainda? Baixe o aplicativo aqui e ganhe R$10 de desconto nas duas primeiras viagens.

E, se tiver sugestões de mais empresas a serem analisadas, também escreva abaixo.

 

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3 Comentários

  1. Marcos Lima disse:

    fora uber pirata! rs

  2. Leonardo Matheus Rapozo disse:

    Daniel de onde vem o dado de apenas “41% do total do custo real das viagens. O restante do custo era subsidiado pela própria Uber.”? Fiquei com essa dúvida.
    Gostei do texto e do questionamento, apesar de não concordar totalmente.
    Um abraço!

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